Você sabe o que é um delírio?

Nessa semana me visitou no consultório um senhor de 85 anos de idade. Bancário aposentado, carreira abrilhantada por longa atuação e por serviços contábeis prestados a eminências políticas da época. Boa compleição física, aparência tranquila. Falava de um jeito ágil e respondia de acordo com as perguntas da minha entrevista.

Veio encaminhado por um outro médico dermatologista. Havia procurado o especialista em doenças da pele foi para que o médico retirasse aqueles “bichinhos que caminhavam sobre sua pele”, fazendo com que ele frequentemente tivesse que usar uma pequena pinça para retirar os tais insetos de sua pele. De fato, as superfícies de seus antebraços continham dezenas de feridas causadas pela aplicação da pinça- movimento esse repetido diversas vezes ao longo dos últimos dias. O dermatologista, após trabalho completo de análise, exames e raciocínio clínico, chegou à conclusão de que os tais parasitas na realidade não existiam, ou melhor, existiam apenas na realidade do paciente. Aquela sensação de bichinhos percorrendo a pele era uma criação, uma invenção da mente do paciente, ou mais apropriadamente, uma alucinação.

Embora as alucinações – percepções de um objeto, sem que este esteja presente- sejam mais comuns em indivíduos com transtornos mentais graves (sobretudo nas psicoses), podem ocorrer também em pessoas que não apresentam tais condições. Diversos estudos mostram que em torno de até 10% da população saudável possa experimentar algum tipo de alucinação ao longo da vida.

Voltando ao caso, esse tipo de alucinação tátil, em que o paciente sente insetos correndo/mordendo sua pele, foi descrito pela primeira vez pelo neurologista sueco Karl-Axel Ekbom em 1938, e ganhou o nome de Síndrome de Ekbom, atualmente também chamada de parasitofobia ou delírio de infestação. Condição bastante rara de se ver, normalmente incide mais em mulheres, mais idosas, que vivem certo isolamento social. Pode ocorrer em paciente com esquizofrenia, depressões graves, e também em casos de intoxicação/abstinência por álcool e outras drogas.

Curiosamente, o paciente não fazia uso abusivo de nenhuma substância lícita ou ilícita, e também não apresentava sintomas de depressão. Levando em consideração a idade do paciente, fiz testes padronizados de memória, e para minha surpresa, não identifiquei nenhum prejuízo nessa função cognitiva. Exames de laboratório coletados após a primeira consulta não acusavam alterações dignas de nota, bem como a ressonância magnética do crânio, que estava de acordo com os padrões radiológicos da idade do paciente.

Em suma, essa alteração da capacidade de sensopercepção estava lá, prejudicando sua qualidade de vida e preocupando os familiares, sem uma explicação causal óbvia até o momento em que escrevo esse texto.

Na minha opinião, esse sintoma provavelmente está relacionado à uma síndrome demencial atenuada, ainda sem expressão clínica, que deverá se mostrar correta caso outras alterações cognitivas surjam ao longo dos próximos meses/anos. O acompanhamento longitudinal dos pacientes é uma ferramenta clínica indispensável, pois muitas conclusões e tomadas de decisões clínicas sobre tratamentos levam tempo para se mostrarem corretas. Devemos sempre estar atentos ao fato de que nem sempre as síndromes demenciais se apresentam inicialmente com prejuízo da memória. Não raro, o primeiro sinal da demência pode aparecer na forma de mudança comportamental, na mudança do humor, na mudança de personalidade, principalmente para as demências fronto-temporais (DFTs). Esse assunto será abordado numa próxima publicação.

 

Dr. Gabriel Hahn Monteiro Lufchitz

CRM/SC 16781

 

 

REFERÊNCIAS:

Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3ª ed. – Porto Alegre: Artmed, 2019.

BMJ Best Practice. Acesso restrito.

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